8

Tecnologia a serviço do circo eleitoral

A eleição é considerada como sendo o evento mais importante da democracia, onde o povo manifesta quem quer que o represente para defender seus interesses perante as autoridades. Bom, esta é a teoria.

A prática é bem diferente: as crianças aprendem desde cedo que todos os políticos são ladrões, que o voto é uma obrigação (e como a maioria das obrigações, sem graça) e que devemos escolher os menos piores para votar. E foi assim que crescemos: habituados a ver tanta coisa errada, sem fazer nada a respeito, como meros espectadores do que acontece na sociedade onde vivemos.

Eu não sou uma exceção. Assim como a grande maioria dos cidadãos, não sou, confesso, muito atento à política. E intencionalmente me previno de ficar conversando sobre um assunto que eu conheço tão pouco. É como diz o ditado popular: religião e política não se discute. Religião não se discute simplesmente por respeito à opção do nosso interlocutor. Política não se discute porque é um assunto chato e insalubre – pode causar depressão. Eu me explico.

A época de campanha eleitoral é um período que me enoja. Vou tentar enumerar o que me causa tanto revertério na época eleitoral:

Opiniões néscias – é incrível a quantidade de pessoas que não entendem de política e que ficam dando palpite sobre o assunto em blogs e redes sociais. Esse artigo que você está lendo me coloca neste grupo de pessoas.

Jingles – alguns chegam a ser hilários, e não agregam nenhum valor. Alguém aí já ouviu um jingle onde o eleitor fique sabendo das propostas do candidato? Não, meu caro, não tem. Não tem nenhum jingle educativo. O objetivo de qualquer jingle é fixar na mente do eleitor o nome e o número do candidato, não importa o partido dele nem o que ele pensa (ou não pensa) em fazer.

Promessas – esse item dispensa explicações. Nós herdamos, culturalmente, a ideia de que os políticos não cumprem o que prometem. Devem existir exceções, mas não é isso o que aprendemos dos nossos antepassados.

Candidatos – é cada figurão que aparece! Esse ano teve até um tal de Papai Noel, pra não citar outros palhaços por aí – vou falar um pouco mais sobre essa categoria algumas linhas abaixo.

Sujeira – já reparou (é claro que já) como as ruas ficam tomadas por aqueles “santinhos” que as pessoas contratadas para distribuir jogam para o ar, aos montes? E a ironia: a maioria deles trás a inscrição “Não jogue em via pública“. Pura etiqueta, vazia.

Mas qual o motivo de tanta repulsa – da minha parte – ao processo eleitoral?

Eu procuro ser uma pessoa prática. Se algo não tem serventia, joga fora! Na escola onde dou aula, sempre digo aos meus alunos: eu não estou aqui pra fingir que ensino e para ver vocês fingindo que aprendem. Se o professor não presta, joga fora! E é o que eu acho das eleições: não servem pra muita coisa não…

Para questionar a validade das eleições, vamos voltar aos santinhos voadores distribuídos, principalmente, no dia da eleição. É uma espécie de “cola”, para o eleitor que já escolheu o seu candidato mas tem medo de esquecer o número quando chegar na cabine de votação. Mentira! O eleitor não escolhe. Eu conheço pessoas – e você também conhece – que não escolhe nenhum candidato, nem sabe o que é uma proposta de governo. Hoje, no caminho de volta pra casa depois de cumprir minha obrigação cívica, vi uma senhora pescando um folhetinho na rua. O que ela estava querendo ao fisgar um papelete daquele? Colaborar para a limpeza da rua? Que nada. No mínimo ela faz parte do grupo gigantesco de pessoas que desliga o rádio e a televisão durante o horário eleitoral gratuito e não sabe o número de nenhum candidato nem suas propostas. Então ela pega o folheto que está todo preenchido, na sequência correta de votação, para não ter trabalho e não ter de ficar lidando com esse assunto chato. Ela não tem trabalho, vota em quem não conhece e o político fatura o voto de mais um inocente.

Enquanto escrevo estas linhas, os últimos votos do primeiro turno das eleições 2010 são contabilizados. Mas no site do TSE já é possível ver a prévia dos votos apurados. O Tiririca, aquele palhaço analfabeto que não consegue ler 3 linhas da constituição e que não sabe o que desempenha uma pessoa ocupando o cargo ao qual se candidatou, já tem mais de 1,3 MILHÕES de votos, muito mais que o dobro de votos do segundo colocado entre os candidatos a Deputado Federal. O seu slogan? “Você sabe o que faz um deputado federal? Eu também não sei, mas vota em mim que eu te conto. Pior do que não fica!”.

Sabe o que isso significa? Que existem mais de 1,3 milhões de paulistanos que são como ele: palhaços que não sabem o que faz um Deputado Federal. Agora esse cara vai pro senado pra câmara, como um verdadeiro “laranja”, enquanto o partido se aproveita do quociente eleitoral para colocar junto com ele tantos outros bandidos que não conseguiriam uma quantidade dessa de votos, por motivos óbvios.

Mas para que possamos colocar esses caras lá, temos à disposição um sistema eleitoral que causa inveja a muitos países de primeiro mundo por aí. E isso é motivo pra se orgulhar, não? Olha só um tweet que apareceu na minha timeline neste fim de domingo:

At least, elections in Brazil have proved we have technology to do that! More than 120 million votes counted (89%) in 3hs

Traduzindo: Pelo menos, as eleições no Brasil provam que temos tecnologia para isso! Mais de 120 milhões de votos contabilizados (89%) em 3 horas.

Aí eu me pergunto: pra quê isso? Adianta ter o melhor sistema de votação, sendo que o povo que usa o sistema não sabe para quê utilizá-lo? É como entregar um super-computador para uma criança de 2 anos: ela pode saber apertar as teclinhas, mas não vai saber apertar as teclas certas para fazer algo útil. Bom, pelo menos a criança não faz NADA com o dito super-computador. Já um adulto faz muita besteira com uma pequena máquina que tem pouco mais de 10 teclas.

Comments 8

  1. O texto é muito bom, mas carece de uma conclusão. De fato devemos concordar que o processo eleitoral é ruim, e portanto, deve ser “jogado fora”.

    Mas não basta apenas jogar fora a água do banho, correndo o risco da criança ir junto: a garantia do direito de votar nos custou muito caro, e é preciso que não se desista dela. Portanto, acredito que o processo tenha de ser substituído, melhorado. E são necessárias propostas nesse sentido. Isso também é papel do eleitor.

    Por principio, acho que o malfadado “quociente eleitoral” é algo que deveria ser eliminado. E cobrarei dos meus candidatos que procure tomar alguma providencia. É o que posso fazer no momento.

    Por fim, só uma incorreção. Tiririca não vai ao Senado, mas sim à Camara.

    1. Agradeço a observação precisa (já atualizei o post) e a bela conclusão dada
      ao artigo!

      2010/10/4 Disqus

  2. Ficou show de bola suas colocações…… “Pior que tá não Fica”……. tem mais 1 ponto a ser colocado…. O tiririca é politico em São Paulo e foi comemorar lah em riba… como ele mesmo disse na cidade dele…. pq ele não se candidatou por lah? Só lamento…
    Abs.

    1. Em relação ao seu comentário eu gostaria de expor minha discordância. Não precisa existir qualquer relação entre o lugar de origem de um candidato e local de sua eleição.

      No arremedo de proposta que o Tiririca informou, há uma predisposição a atuar pelos cidadãos nordestinos ou de origem nordestina que por aqui vivem. Considero inclusive importante essa proposta pois há sim muito preconceito com esses membros da nossa população, inclusive com grupos que se opõem a eles sem qualquer conhecimento de causa.

      A questão é se o candidato tem condições de realizar suas propostas ou não. E no caso do Tiririca, como fica evidente, a resposta tende a ser negativa.

  3. Na minha opinião suas colocações estão ótimas e evidentes, pena q não podemos fazer nada, verdadeiramente essa foi a vontade de mais de um milhão de eleitores, mas, felizmente podemos colocar nossas opiniões e conclusões de forma burocrática, eu tb acho q pior do q está não fica, porém se outro candidato ganhasse poderíamos ver alguma coisa acontecer, ou algum movimento para melhor, mas sendo esse o GANHADOR além de nada contecer, ainda temos a bela imagem e o grande conhecimento do mais novo DEPUTADO FEDERAL…..só lamento………….

    1. Srta Cíntia,

      Esperamos que alguém consiga provar o que todos já sabem sobre o mais novo
      palhaço que nos representa na câmara…

      Obrigado pelo comentário!

      2010/10/6 Disqus

  4. Muito lúcido. Eleições são apenas datas no calendário, pois o poder do dinheiro já definiu, logo nas convenções, que são feitas escondidas do povo, quem vai receber as fatias mais gordas dos financiamentos de campanha

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *